Prostrou-se no batente da porta e tentou visualizar os próprios pés descalços e imundos. O mundo girava ao seu redor. Estava embriagada demais para conseguir manter um ponto fixo em qualquer lugar do quarto semi-iluminado.
Certo dia olhou para a cama e fitou aquilo que outrora chamou de “meu amor”. Não era como antes. Lamentou-se pelo dia em que disse “sim” na porta da casa de seus pais. Doou-se para algo que pensou ser o início de uma vida feliz. Estava enganada.
Não houve igreja. Ela era católica, ele; budista. Decidiram por desagradar ambas as famílias e dar uma festa para os amigos. No fim de tudo, as latas de cerveja estavam espalhadas pelo apartamento apertado na Lapa, taças vazias e corações cheios de vontade, úmidos e quentes. As pontas dos dedos tremiam lascivamente. Fizeram amor por toda a noite que procedeu à festa.
O tempo passou miúdo, curto, silencioso e imperceptível, até que veio a primeira vez em que ela conheceu o que mais tarde chamara de “depressão pós-coito”.
Deitou-se e fingiu gemer. Em meio aos balanços da cama, tudo o que mais desejava era que acabasse logo, que aquilo findasse como parecia chegar ao fim o seu amor. E assim, sem mais nem menos, nem boa noite, virou para o lado. A água vinha de seus olhos que lamentavam, a cada momento, o amor desperdiçado que vinha daquele homem que tanto a queria bem.
Não! A falha não veio dele. Foi apenas o acaso que repousara no destino e ditara algumas situações de desapego. Ele nem se quer percebia que a moça já o vilipendiava há muito. Aquele tempo fez mal a ela. Os anos dos quais ela desejava passar ao lado dele desgastaram-se deixando apenas, em uma certa noite de Natal, o presente irritante de uma companhia indesejável. Ela, agastada, queria mesmo estar com seus amigos e com seus pais em qualquer outro mundo onde não fosse responsável por absolutamente nada, porém, o destino teimoso e cruel apenas a mantinha ali, como um objeto de mobília, cozinhando, varrendo e passando.
Não! A falha não veio dele. Fora apenas o desânimo e o desatino que a fizeram uma visita simples e mórbida num dia qualquer; numa tarde de pensamentos abundantes em que ela dissera pra si mesma: “estou cansada”. Mas em nenhum momento ela saiu dali. Ele a incentivava a buscar alguma coisa para fazer, ela, por sua vez, insistia em ficar no ócio de sua paixão por si mesma e o culpar, de certa forma, por tudo aquilo em que ela se transformava aos poucos, miudamente, curtamente, silenciosamente.
Naquela noite de natal ela estava decidida a acabar com tudo o que construíram no decorrer daquele tempo. Foda-se que a falha não vinha dele. Dane-se que tivera sido apenas o descaso. Seu limite estava ao máximo; porém, na presença da família, numa noite cristã que ele não comemorava, mas ainda assim estava ali apenas por agrado, o rapaz a pegou pelo braço carinhosamente e lhe disse, reservadamente, as palavras que pareciam sair de uma caixa… Um embrulho de presente natalino:
- Não posso mais. Não posso mais lhe enganar na presença de sua família. Há tempos não me sinto contente como homem. Sei que é uma noite em que isso não deveria acontecer, mas não dá pra levar esta situação à frente.
Aquilo era um despautério, e mesmo sendo tudo o que ela desejava, não pôde, por orgulho, aceitar aquilo. Chorou quieta por horas até que ele desistiu da idéia de partir, e assim, logo após o final do festejo, ele foi para o quarto deixando-a abandonada na sala junto aos ácaros da tapeçaria.
Ela bebeu tudo o que podia e chorou pelo o que não podia chorar.
Prostrou-se no batente da porta e tentou visualizar os próprios pés descalços e imundos. O mundo girava ao seu redor naquela madrugada de natal. Estava embriagada. Sozinha demais para poder manter um ponto fixo em qualquer lugar do quarto que estava semi-iluminado. Decidiu que não deixaria o casamento acabar assim.
Quando acordou ao lado do homem-sem-amor, ao contrário de tudo o que desejou fazer durante algum tempo, sorriu forçosamente, inclinou as sobrancelhas para baixo e disse para ele:
- Vou preparar o café, meu amor.
*S.Charro